Tradição que ultrapassa gerações

   A maior manifestação cultural do Amapá se mantem viva e pulsante na vida de todos os marabaixeiros e admiradores, uma cultura que passa de geração para geração. Durante a reportagem já foi mostrada a origem do marabaixo, sua história, suas características e peculiaridades pelo olhar e saber dos próprios marabaixeiros. Mas nessa reportagem vamos além disso, mostrando e contando as vivencias desses marabaixeiros, os relatos e memorias pessoais entorno dessa cultura. Além de abordar como acontece o processo de autoidentificação com a cultura local dentro das famílias tradicionais e na população em geral.

      O cantor Paulo Bastos não é das famílias tradicionais do marabaixo, mas a cultura está presente na sua vida há muitos anos. Sabe tocar caixa de marabaixo, está presente nas rodas, utiliza o ritmo do marabaixo nas suas composições e se arrisca a tirar ladrões de marabaixo (compor), além disso é um dos fundadores do grupo Banzeiro do Brilho-de-Fogo que tem o objetivo de propagar a cultura do marabaixo para toda a população.

    Segundo Paulo Bastos, o seu primeiro contato com o marabaixo aconteceu ainda na infância junto com  seus irmãos por influência do pai José de Sena Bastos. “Quando éramos crianças, o papai sempre levava a gente para as rodas de marabaixo urbano, que acontecia dentro da cidade de Macapá, pelo antigo bairro da Favela. Após isso, já na adolescência vim conhecer o Curiaú, por meio de várias experiências que eu tive na escola de música e que foi muito interessante, pois a escola que tem um repertório todo tradicional nos abriu um espaço para conhecermos a realidade da nossa música, a nossa identidade musical, e foram momentos fantásticos de poder ver o povo tocando, ali estávamos diante da originalidade, vendo que os caras tocavam de uma maneira que a gente não estava acostumado”, pontuou. 

      O sociólogo Fernando Canto, autor do livro “O Marabaixo Através da História”, conta que sua história com a manifestação cultural também teve início ainda nos primeiros anos de vida. Desde sempre nutriu um carinho e respeito pelas tradições vividas pelos seus vizinhos no bairro Laguinho. “Eu achava achava curioso aqueles mastros pendurados, aquelas pessoas tocando e me aproximava deste movimento porque morava no Laguinho, e a maioria dos meus amigos participavam dos festejos", relembrou.

      Segundo Ecléa Bosi no livro “Memória e Sociedade: lembranças de velhos” a memória muitas vezes vai se modificando ao longo dos tempos, porém continuam sendo memórias e possuindo relevância para a sociedade. Os representantes dos grupos de marabaixo carregam consigo a missão de dar continuidade ao movimento cultural dos grupos transmitindo a tradição aos mais novos, e é através de suas vivências que encontraram uma forma de incentivar a conhecer e compreender a importância da manifestação dentro do estado e no âmbito familiar. 

  

     No caso de Fábio Souza, um dos fundadores do Marabaixo da Juventude, a sua participação no marabaixo ocorre desde a infância, quando indagado sobre seu primeiro contato com a manifestação cultural, na memória logo reluz a lembrança de aprender a tocar caixa de marabaixo desde criança.

      “Minha avó todos os anos realiza festejos na casa dela do menino Deus no natal, então eu nasci em novembro e em dezembro teve. Então desde quando eu nasci, eu sempre tive esse contato muito forte com o marabaixo, mas na minha lembrança mesmo que eu tenho eu já sabia tocar, era até no encontro dos tambores, foi o primeiro rufar dos tambores que teve aqui na UNA (União Dos Negros Do Amapá) e eu estava lá presente junto com a minha caixa tocando”, lembrou o Fábio.

Daniella Ramos, bisneta de Julião Ramos e presidente da Associação Cultural Marabaixo do Laguinho, nasceu dentro da manifestação cultural, e sempre se destacou pela atuação em relação ao reconhecimento do marabaixo como cultura do Amapá. Em suas memórias de criança, guarda consigo as experiências abosrvidas com grandes ícones do cenário cultural do marabaixo, no entanto, guarda também as lembranças de um período de forte preconceito que sofriam.

      “Comecei a cantar com oito anos de idade, e sempre fui muito ativa nas rodas de marabaixo. Sempre fiz questão de participar, naquela época tinha muito preconceito, muitos que tinham a mesma faixa etária que eu, acabavam tendo uma certa vergonha, relutavam em participar devido o preconceito que havia com quem estava nas rodas, até hoje ainda encontramos alguns destes obstáculos,  mas naquela época era bem pior”, ressaltou.

     Já Valdinete Costa, coordenadora da Associação Cultural Berço do Marabaixo, apesar de não ter conhecido sua avó Gertrudes Saturnino, tem as histórias da fundadora do grupo Berço do Marabaixo vivas em sua memória. Mantém também as lembranças de quando teve os primeiros contatos com o marabaixo, por nascer dentro de uma família tradicional da cultura. “Recordo que quando pequena, a minha mãe fazias as festas dentro de casa, retirava os poucos móveis que nós tínhamos e deixava um grande barracão dentro da casa para fazer a festa”.

     A manifestação cultural representante de uma localidade, para se perdurar ao longo dos anos precisa construir um processo de autoidentificação nos indivíduos. As famílias tradicionais do marabaixo, antigamente não tinham a participação de crianças nas rodas de marabaixo, mas com o passar do tempo foram percebendo a necessidade de envolver os seus descendentes desde a infância dentro das rodas.

     "Nós crianças não entravamos na roda, não era permitido, com o passar do tempo é que foi se percebendo a necessidade dessa perpetuação, e isso só poderia ser feito com a gente perpassando para as novas gerações o gosto e o amor por nossa cultura”, contou Valdinete Costa, coordenadora do Berço do Marabaixo.

    Daniella Ramos, relata que apesar da dificuldade na presença de crianças nas rodas, sua família sempre tentava inseri-la no contexto. “A maioria das pessoas daquela época não gostavam de ver criança na roda, porém minha mãe e a minha avó sempre incentivaram nossa participação e nos defendiam quando alguém tentava nos retirar das rodas. Hoje, eles já perceberam que se os jovens realmente não derem continuidade a tradição pode acabar morrendo”.

      Esses são os relatos de duas mulheres, membros de grupos tradicionais de marabaixo, assim podemos perceber que a entrada de crianças nas rodas era muito complicada antigamente, mas esse cenário mudou. O incentivo para a participação desde a infância nas rodas é presente nos dias de hoje nas famílias tradicionais. Assim, o processo de autoidentificação com a cultura acontece desde cedo, tornando essas crianças o futuro daquele movimento cultural, criando uma essa relação de pertencimento na juventude também.

   Com a nova visão de abertura e popularização do movimento cultural no estado do Amapá, o marabaixo iniciou um processo de desenvolvimento e passou a fortalecer o sentimento de pertencimento em todo o estado. E assim, começa o trabalho de gerar em toda a população a autoidentificação com a cultura local. Mesmo não sendo uma tarefa fácil os grupos tradicionais e projetos culturais que são desenvolvidos, buscam mecanismos de difusão e propagação da manifestação em toda sociedade.

     Dessa forma, os próprios marabaixeiros afirmam que o marabaixo não pertence somente às famílias tradicionais, mas sim a toda população, estando de portas abertas para que a sociedade conheça e compreenda o que é o marabaixo. De acordo com Adelson Preto, as rodas de marabaixo do Raízes do Bolão sempre estão preparadas para recepcionar os que desejam conhecer. “Aqui temos as nossas festas tradicionais aonde festejamos com os amigos, sejam eles negros, brancos, índios, mulatos. Porque damos continuidade numa cultura linda que é característica do nosso estado”, pontuou.

   Marabaixo da Juventude 

      O grupo Marabaixo da Juventude foi fundado em 2014, tendo como santo padroeiro São José. Surgiu com o objetivo de agregar jovens dentro da cultura do marabaixo, fortalecendo questões como pertencimento, autoidentificação, conhecimento e compreensão da manifestação cultural. Desde então o grupo se estabeleceu e criou ações para levar o marabaixo a vários lugares, passando a frequentar escolas e fazer oficinas. Pensando também na parte religiosa, o grupo passou a realizar todos os meses novenas para resguardar a memória religiosa que é primordial para os marabaixeiros, dessa forma, o grupo busca agregar conhecimento, compartilhar saberes e incentivar a participação de mais jovens no movimento que atualmente conta com a participação de mais de 60 pessoas.

     “É uma dinâmica bem forte que tem dentro do marabaixo e essa diferenciação é a partir de uma nova roupagem para o marabaixo na visão do jovem, onde pretendemos preservar aquilo que foi passado para a gente mas trazendo algumas inovações, inclusive utilizando muito a ferramenta das redes sociais”, explicou Fábio Souza, um dos fundadores do grupo.

      Além das atividades relacionadas ao marabaixo, o Marabaixo da Juventude proporciona aos jovens participantes do grupo, ações como rodas de conversas, debates sobre valores, pertencimento e identificação desse jovem com o marabaixo. “A ideia é sempre conscientizar a todos sobre a importância de lutar para que o marabaixo consiga estar funcionando da maneira que deve ser. Que compreendam que é nossa raiz, de onde viemos, que é nossa própria história”, frisou Fábio.

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