O ciclo do Marabaixo
  Enquanto nas comunidades rurais os grupos realizam festas em louvor aos seus respectivos santos padroeiros, o Ciclo do Marabaixo é realizado pelas famílias tradicionais dos bairros da Favela e do Laguinho, como forma de manifestar toda fé e devoção à Santíssima Trindade e o Divino Espírito Santo. O Ciclo ocorre durante três meses, obedecendo o calendário cristão, as festividades iniciam no Sábado de Aleluia com o Marabaixo da Iniciação e encerra no Domingo do Senhor, após o feriado de Corpus Christ.
     O Ciclo do Marabaixo congrega cinco grupos, dois do bairro do Laguinho que são os Grupos Raimundo Ladislau (Associação Cultural Marabaixo do Laguinho) e Raízes do Pavão, dois na Favela (como era conhecido o bairro Santa Rita), que são os grupos Berço do Marabaixo e Raízes da Favela Dica Congó que são grupos de marabaixo urbano e um grupo de marabaixo rural de Campina Grande, comunidade distante há 35 quilômetros de Macapá. 

     O marabaixo tem sua manifestação atrelada a religiosidade, dessa forma, cada grupo tem seu santo padroeiro, sendo que em Macapá no bairro da Favela se festeja a Santíssima Trindade e no bairro do Laguinho a Santíssima Trindade e o Divino Espírito Santo. Neta de Gertrudes Saturnino, pioneira do Bairro da Favela, Valdinete Costa explica que a tradição tem como origem o pagamento de promessas aos santos padroeiros.

 

      “A minha mãe, dona Natalina, começou a ter problema ao engravidar, então minha avó prometeu à Santíssima Trindade que se minha mãe conseguisse engravidar ela faria todos os anos a festividade, e durante o período ela serviria um almoço para 12 crianças, simbolizando desta forma Jesus e seus apóstolos. Daí, com muita fé minha mãe conseguiu engravidar e coincidentemente teve 12 filhos”, explicou.

 

     O grupo Marabaixo da Juventude tem como santo padroeiro o São José que também é padroeiro da cidade de Macapá, que foi uma escolha feita em conjunto pelos integrantes do grupo. "São José virou nosso padroeiro porque antigamente a festa de São José tinha uma grande proporção, tal qual o Círio de Nazaré, então houve uma decaída na festa e a gente começou a pensar no sentido de fortalecer a festa do padroeiro, dando maior evidência para o santo que é da nossa cidade. A princípio escolheríamos São Benedito porque somos do bairro do Laguinho, mas posteriormente achamos melhor escolher São José que é do estado e agrega todo mundo", pontuou Fábio Souza um dos fundadores do grupo. Já no grupo Raízes do Bolão da comunidade do Curiaú o padroeiro é o Santo Expedito uma escolha feita por causa da famosa Tia Chiquinha.

     Segundo, Rostan Martins no livro “Aonde tu vai, rapaz, por esses caminhos sozinho?” (2016), os negros que moravam na orla da cidade de Macapá, precisaram se retirar do local, pois ali serviria para a construção do comércio e residência dos governantes. Este momento se tornou marcante para a cultura do marabaixo, fazendo com esta se expandisse para novas áreas da capital. O processo de retirada aconteceu na gestão do primeiro governador do Estado do Amapá, capitão Janary Nunes, e a mudança de diversas famílias, foi coordenada por Julião Ramos, figura popular e líder da comunidade negra. “Alguns historiadores dizem ser mestre Julião um dos fundadores do marabaixo. As manifestações do marabaixo eram realizadas em sua residência” (MARTINS, 2016, p. 34).

 

     Mas existem várias versões sobre algumas coisas ligadas a cultura do marabaixo, como por exemplo, alguns marabaixeiros afirmam que o toque das caixas de marabaixo iniciaram no município de Mazagão/AP, que foi porta de entrada para os navios negreiros. Após a retirada das famílias da frente da cidade de Macapá, a manifestação começou a ocorrer nos bairros Laguinho e Favela.

 

      No bairro da Favela (atualmente bairro Santa Rita), as rodas de marabaixo iniciaram por causa da fundação dos grupos Berço do Marabaixo e Raízes da Favela Dica Congó que festejam a Santíssima Trindade. Esses dois grupos têm como fundadores personagens que também foram resistência, continuando a manifestação cultural na favela após a mudança da orla da cidade.

      O Ciclo do Marabaixo é composto por várias datas, como o sábado do Divino Espirito Santo conhecido também como “Cortação do Mastro”, depois o “Domingo do Mastro”, “Levantamento do Mastro”, “Sábado do Divino Espirito Santo”, “Domingo da Santíssima Trindade” e “Domingo do Senhor”. Possui também muitos símbolos: a murta, uma erva aromática retirada nas matas da área quilombola do Curiaú para abrir os caminhos dos festeiros; o mastro, tronco retirado também nas matas do Curiaú que indica o local dos festejos, faz parte da tradição seu levantamento e seu tombamento, que marca o encerramento do ciclo.

 

     Segundo Fábio Souza, quando se levanta o mastro os marabaixeiros estão agradecendo pelo festejo. “E nesse sentido de elevação, de agradecimento, e quando derrubamos a gente agradece também por estar recebendo aquela festa. Então ele identifica o local da festa e também tem esse ritual de levantar e erguer o mastro de iniciação da festa e dentro do ciclo ele é levantado para iniciar as novenas”, explicou.

     A murta é uma erva aromática que também simboliza uma limpeza espiritual nos marabaixeiros. Antigamente a murta era apanhada no terreno da Infraero, onde atualmente é localizado o Aeroporto Internacional de Macapá Alberto Alcolumbre. Hoje, a murta é retirada nas matas do Curiaú.

     Outro símbolo marcante dentro da cultura do marabaixo é a gengibirra uma bebida feita da planta do gengibre no qual são usadas as suas raízes. Inicialmente, a gengibirra foi feita com o intuito de melhorar as cordas vocais dos tiradores de ladrões, os marabaixeiros que entoam os ladrões de marabaixo, mas com o passar do tempo a bebida popularizou-se, não ficando restrita apenas aos cantadores.

     De acordo com Valdinete Costa a gengibirra é um dos elementos que constituem as festas tradicionais de Marabaixo. “Logo no início, a gengibirra não continha água ardente, ela era utilizada somente com efeitos medicinais auxiliando os cantores a manterem as gargantas afinadas, pois cantar marabaixo exige muito das cordas vocais, tanto que ficamos completamente roucos durante as rodas”, ressaltou Valdinete Costa.

    A vestimenta feminina e masculina também chamam a atenção, sendo uma das características fortes da manifestação. De acordo com Daniella Ramos entre os diversos significados das roupas destaca-se as saias rodadas e floridas que simbolizam a alegria das mulheres nos momentos de lazer. “A blusa, por sua vez, era sempre branca simbolizando a paz, assim como a roupa dos homens que antigamente era toda branca, calça branca, blusa branca simbolizando a paz. Por ser uma dança ritmada, também é comum ver toalhas sobre os ombros, que serviam para enxugar o suor do rosto. A toalha também era usada pela mulher para cortejar o homem na roda, chamando atenção dele para dançar com ela”, explicou.

© 2020 Açucena Portal Cultural.