Marabaixo, um nome que possui tanto significado para uma cultura, tem em sua origem a história de um povo. O município de Mazagão foi a porta de entrada para os navios negreiros que saiam da África, sendo a tripulação composta pelos escravos que seriam usados para a construção da Fortaleza de São José de Macapá. Durante as tortuosas viagens, os negros entristecidos com a retirada forçada de seus países de origem entoavam canções de lamentos (ladrões de marabaixo) para resguardar suas memórias. No estado do Amapá existem aproximadamente 40 grupos de marabaixo.

     No livro “Aonde tu vai, rapaz, por esses caminhos sozinho?” do autor Rostan Martins (2016), conta-se que os negros chegaram no Amapá vindos de Belém, Nordeste e do Rio de Janeiro, aproximadamente em 1751. O autor relata no livro que “Paralelamente à Fortaleza de São José de Macapá e à Igreja de São José, também como marco importante do início do marabaixo, a história e a Vila de Mazagão Velho, no município de Mazagão / AP [...]” (MARTINS, 2016, p. 30).   

     As músicas do marabaixo são conhecidas e intituladas como “ladrões de marabaixo”. Esse nome tem um significado muito interessante, de acordo com os marabaixeiros, o termo ‘ladrão’ é porque os marabaixeiros roubavam do cotidiano fatos que chamassem sua atenção e assim tiravam os versos para os ladrões de marabaixo. Mas muitos desses ladrões estão registrados como domínio público que é uma condição jurídica, de acordo com a lei n° 9.610, Art. 41. “Os direitos patrimoniais do autor perduram por setenta anos contados de 1° de janeiro do ano subsequente ao de seu falecimento, obedecida a ordem sucessória da lei civil. Parágrafo único. Aplica-se às obras póstumas o prazo de proteção a que alude o caput deste artigo”.

      Assim muitos ladrões se tornaram de domínio público, pois antigamente existia uma grande dificuldade para fazer o registro nos cartórios desses autores. Segundo Daniella Ramos, bisneta do mestre Julião Ramos precursor do marabaixo no Amapá, essa dificuldade para o registro se dava também porque muitos dos compositores de ladrões eram analfabetos.

     Para tirar (compor) um ladrão de marabaixo é necessário um raciocínio rápido uma vez que a letra é baseada em fatos do dia-a-dia. Segundo Fábio Souza, popularmente conhecido como Fábio Sacaca é preciso observar bem os fatos. “Na época da minha avó eles falavam que eles não faziam ladrão, eles tiravam ladrão porque pegavam o acontecido e tiravam o ladrão, então o ladrão ele é aquele roubo daquela cena e vai ser feito dentro do marabaixo”.

     Adelson Preto um dos integrantes do grupo Raízes do Bolão localizado na comunidade do Curiaú e o cantor Paulo Bastos membro do grupo Banzeiro do Brilho-de-Fogo tem no seu repertorio ladrões de marabaixo, tirados por eles mesmos e que tem histórias bem interessantes:

     Como podemos observar, o marabaixo é uma cultura muito rica e sendo tão única tem a dança como peculiaridade também. Os passos do marabaixo tem um significado muito forte, pois é um relato sobre a origem de todos os seus antepassados. A dança do marabaixo é feita em uma roda no sentido anti-horário com os pés arrastados, simbolizando as correntes nos pés dos escravos, que por sua vez não podiam dar passos longos.

     De acordo com um dos fundadores do Marabaixo da Juventude, Fábio Souza, é uma dança circular que retrata a memória ancestral. “A dança ela retrata essa memória ancestral, por isso que muitas danças culturais do Brasil elas são dançadas em roda, o marabaixo também é dançado em roda só que no sentido anti-horário pra fazer essa memória desses nossos antepassados, dessas pessoas que quando vieram pra cá morreram e foram jogadas no mar”, pontuou.

     Para Fábio Souza existem diferenças de como eram feitas as rodas de marabaixo de antigamente para os dias de hoje. Segundo ele, as rodas de marabaixo são mais festivas atualmente, antigamente eram  realizadas em forma de lamento. “Então antigamente o marabaixo era uma “brincadeira” séria que não podia ultrapassar muito o limite, não tinha muitos gritos como a gente ver hoje, era uma coisa bem de lamento mesmo que era feito o marabaixo. Com o passar do tempo vai se modificando, se atualizando, e a gente vê o marabaixo hoje um pouco mais festivo, antigamente não, era para realizar o festejo, só que não tinha a alegria como hoje”, explicou.

     A coordenadora da Associação Cultural Berço do Marabaixo, Valdinete Costa menciona que existem diferenças entre o marabaixo e o batuque. O marabaixo tem suas raízes no lamento, na tristeza de um povo que buscava resguardar suas memórias, sendo completamente diferente da cultura do batuque que é algo relacionado à liberdade, quando se comemora algum acontecimento.

      “O marabaixo é essa cultura, essa tradição que é um lamento, ela é uma coisa da vivência da sua comunidade, mas que é um lamento, ela trabalhava muito a questão da sua tristeza, das suas dores né tanto que o marabaixo ele é menos ritmado que o tambor, que o batuque”, pontou Valdinete Costa. Além disso, o marabaixo é confundido também com o carimbó, cultura típica do estado do Pará.

     A caixa de marabaixo é outro símbolo forte dentro da cultura, o seu ritmo, a forma como é tocada. É o principal instrumento nas rodas de marabaixo e que acompanha os tiradores de ladrão, os cantadores. Mas o toque, o som da caixa e o seu ritmo se diferencia de um grupo de marabaixo para outro, cada grupo e comunidade tem a sua própria forma de tocar.

     Daniella Ramos, presidente da Associação Cultural Marabaixo do Laguinho, explica que a cultura é a mesma, mas que possuem características distintas. “Tem aquele ladrão que já é mais para cima, mais ritmado que a gente fala até que é o marabaixo da juventude que os jovens gostam muito, e no Laguinho, na Favela e no Curiaú você vê muito isso. Se você for no Mazagão, eles têm um ritmo diferente do Laguinho, da Favela”, ressaltou.

     As raízes da cultura do marabaixo estão ligadas também com a religiosidade católica. Não se sabe ao certo como surgiu a relação com a fé, como o exemplo do próprio nome “marabaixo” que tem várias explicações, mas de acordo com a coordenadora da Associação Cultural Berço do Marabaixo, Valdinete Costa existe uma relação forte entre os dois, tanto que o Ciclo do Marabaixo inicia no sábado de aleluia e termina no domingo do senhor acompanhando o calendário pascal da igreja católica.   

      Segundo Adelson Preto, integrante do Grupo Raízes do Bolão e neto de uma das grandes matriarcas do Marabaixo, Tia Chiquinha, a relação com a fé surgiu por conta dos castigos sofridos pelos negros escravizados. “Os negros sofriam muito nas senzalas e eles acabavam pegando um santo pra devoção, para que pudesse proteger eles dos castigos. Nós temos aqui Santo Expedito, minha vó era devota e recebeu uma benção, aí mandou fazer uma igreja pra ele e hoje todo dia 19 de cada mês a gente celebra uma missa aqui, com a participação não só da família, mas vem amigos, pessoal de outras comunidades”.

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